Como fazer uma transição no mercado de trabalho – Parte 1: Mapas, Ferramentas e Carreira em T

Quando o marketing deve passar um lead para vendas?
Quando o marketing deve passar um lead para vendas?
07/03/2017
Como fazer uma transição no mercado de trabalho – Parte 2: Apresentação, Currículo, Entrevista e Networking
25/04/2017
Show all

Fiz faculdade de Jornalismo, uma carreira que tem mercado cada vez mais apertado e difícil para seus profissionais. A forma como consumimos conteúdo se reinventou e a mídia passa por uma crise sem precedentes.

Claro que existem exceções, mas a função “clássica” desse tipo de comunicação rareia, e existem cada vez menos “oportunidades” – e cada vez piores.

Mas não acontece só em Jornalismo: uma série de carreiras está passando por momentos de disrupção, com excesso de oferta de profissionais e pouca demanda por parte do mercado, especialmente para cargos com boa remuneração, potencial de crescimento ou até aquele gosto delicioso de “que bom trabalhar aqui e com isso”.

E isso fez com que milhares de profissionais que antes tinham o intuito (até mesmo o sonho) de atuarem na profissão caíssem na real. Diante de uma situação dessas, muitos decidem olhar as opções e mudar de carreira. Especialmente dentro do mercado de Comunicação, isso não é tão complexo de acontecer.

Além da crise no mercado, existe também a satisfação pessoal. Você pode estar arrebentando em sua carreira ou empresa, mas se fica triste toda vez que vai ao trabalho ou não consegue se motivar para tentar crescer, pode ter algo errado aí também.

Existem algumas adaptações fundamentais que você precisa fazer se quiser fazer uma transição de carreira. Curiosamente, tem coisas similares com o que chamamos de pivotada no mundo das startups: uma mudança drástica de direção.

Aprendi bastante na minha transição para Marketing e aprendo muito diariamente convivendo com empreendedores na ACE (eles passam por questionamentos como esses diariamente, mas com uma pressão razoavelmente maior) e acho que posso ajudar colegas e futuros colegas a planejarem e, efetivamente, mudarem de rumo.

Quero colocar aqui algumas estratégias e dicas para conseguir fazer a transição de carreira com sucesso. A intenção é desdobrar esse conteúdo em alguns artigos nas próximas semanas. Vamos por partes.

Hoje, começamos com a Parte 1 – Mapas, Ferramentas e Carreira em T.

Para onde vou? – Desenhando o Mapa

O pensamento “aqui tá ruim demais, preciso sair para algum lugar” precisa ser canalizado. Comece com um exercício: onde você quer chegar?

A primeira coisa que você precisa descobrir é para onde vai. O pensamento “aqui tá ruim demais, preciso sair para algum lugar” é constante na cabeça de quem quer fazer a transição de carreira e não necessariamente é ruim, mas ele precisa ser canalizado.

Biologicamente, o cérebro humano tem dificuldade de entender uma negativa desacompanhada de explicação ou alternativa (os cachorros também, diga-se). O “não faça isso” não surte o mesmo efeito se desacompanhado de “faça aquilo” ou “por causa disso”. Logo, a mesma lógica se aplica ao seu pensamento.

Então comece com um exercício: onde você quer chegar? Pode pensar em um ou mais amigos seus que estão naquela carreira, ou em dois ou três caras que você acha f*da e quer “ser como ele quando crescer”.

Não precisa ser muito específico (aliás, tente não fechar muito a descrição do que você quer), mas ter um Norte bem definido é bem importante na transição.

Você precisa ter em quem se espelhar, você pode conversar com essas pessoas para pegar insights e especialmente você pode comparar o seu perfil e experiência em relação ao desejado – e isso nos leva à próxima fase.

Comparando competências

Lembra de quando você jogava videogame (eu jogo até hoje) e cada jogador vinha com uma série de atributos distribuídos em um hexágono?

Dependendo da posição (e até do estilo de jogo) do time, alguns jogadores se encaixavam e desempenhavam melhor ou pior.

Não necessariamente o melhor jogador do jogo era bom para a posição que você queria (exceto quando você colocava o Roberto Carlos no ataque).

O mesmo raciocínio vale para a sua carreira. Certamente você tem competências que são muito usadas e bem-vistas em um mercado X, mas não necessariamente são vistas como grande coisa no mercado Y.

Dito isso, veja quais são as competências que são cruciais dentro da carreira que você quer e estude como adicioná-las ao seu rol de especialidades.

Paridade e Diferenciação

No marketing, temos pontos de diferenciação (no que você é diferente dos seus concorrentes de mercado) e pontos de paridade (onde todos os players daquele segmento são iguais).

Quase sempre um profissional que está trocando de carreira deve em pontos de paridade quando concorre com alguém que “sempre esteve lá”.

Sua grande missão agora é detectar os pontos de paridade (onde você está em desvantagem) e eliminá-los. Muitas vezes, um conhecimento mínimo ou experiência com uma ferramenta ou um tipo de função já ajudam com isso.

E dependendo do que for necessário, você muitas vezes pode fazer isso de maneira rápida e inteligente (abra uma aba do YouTube e digite a competência que você quer aprender para ver se não aparece um monte de vídeos explicativos).

Exemplo: alguém “de Humanas” pode ter dificuldade para lidar com números, fórmulas e relatórios de métricas, cada vez mais comuns e importantes no marketing digital. (aconteceu comigo!)

Por vezes, você terá que investir mais tempo, dinheiro ou esforço, como quando precisa fazer um curso especializante, uma pós-graduação ou tirar alguma certificação, por exemplo. Priorize os pontos onde você terá o maior impacto com o menor esforço.

Uma vez que você equilibrou o seu perfil em pontos de paridade (e conseguiu “vender” isso), a sua história anterior na carreira irá começar a aparecer como ponto de diferenciação.

Exemplo: Um jornalista em tese tem mais facilidade em apurar uma história ou produzir e editar conteúdo do que outros profissionais. Um engenheiro terá mais facilidade em realizar cálculos mais complexos.

No final das contas, pense em uma caixa de ferramentas: você precisa conseguir fazer as mesmas funções que um profissional que já é daquele mercado, e ainda pode colocar mais algumas chaves para se diferenciar. Você pode se apropriar de mais um conceito de empreendedores; o de MVP (Mínimo Produto Viável).

A Carreira em T: profundidade e abrangência

Eu descobri que existia uma teoria muito bem fundamentada para o que eu tinha pensado há uns anos. A “Carreira em T” (T-Shaped Skills ou até T Shaped Organizations) é uma classificação usada em livros de empreendedorismo, tecnologia e marketing (recomendo o Hacking Marketing, aliás) que diz mais ou menos o seguinte, em uma “tradução” livre de pensamentos.

Para alavancar sua carreira, você precisa ter competências em dois eixos: amplitude e profundidade.

Para alavancar sua carreira, você precisa ter competências em dois eixos: amplitude e profundidade. O primeiro é representado pelo eixo horizontal do gráfico acima e quer dizer mais ou menos o seguinte: você precisa ter conhecimento acionável mínimo sobre uma série de coisas direta ou indiretamente correlacionadas ao seu trabalho.

» Veja também: Como alavancar a sua carreira

Eu escutei muito em redação a frase “um jornalista precisa saber falar 5 minutos sobre qualquer coisa”, e isso se aplica também aos conceitos de marketing: mesmo que apenas em nível básico ou intermediário, você precisa saber o que está acontecendo e o que seria possível fazer com alternativas e cenários (afinal, só o Traction lista 19 potenciais canais que você pode atacar).

Às vezes, você não precisa saber fazer nos mínimos detalhes, mas só coordenar outra pessoa ou trabalhar junto com ela. Mas lembre-se que o conhecimento precisa ser acionável!

E o eixo vertical é o de profundidade. Além de saber de tudo um pouco (ou mais do que isso), você precisa ser especialista em algumas coisas – sejam elas “herdadas” da sua antiga carreira ou não (isso vai depender de para onde você quer ir). Basicamente, esse é o seu ponto de diferenciação: saber pra c* de alguma coisa relevante – e conseguir usar isso como um diferencial.

E agora?

Vamos pelo simples. Abaixo está uma checklist básica de perguntas a se fazer para se preparar para mudar de carreira, já com essa Parte 1 de mapeamento de ferramentas.

Você pode conferir o resto em cenas dos próximos episódios. Vamos lá?

  • Onde você quer chegar? Por que?
  • Quem já está onde você quer chegar? O que você pode aprender com ele?
  • Que competências são necessárias para essa carreira?
  • Como eu consigo desenvolver essas competências (rápido)?
  • Que diferenciais eu posso ressaltar?

Nos próximos artigos, vou desenvolver mais sobre como você começa a procurar oportunidades em outra carreira e o que esperar disso (SPOILER: geralmente um downgrade de função e salário); o que buscar e não buscar nessa jornada aproveitando suas competências atuais e como ver quais são os próximos passos uma vez que você fez a transição.

E aí, o que achou do artigo? O seu feedback é muito importante para mim. O espaço para comentários está aberto para discussão, eu realmente quero saber a sua opinião e se tem algum ponto que gostaria de adicionar.

Valeu e um abraço!

Felipe Figueiredo

Felipe Collins Figueiredo é head de marketing da ACE, Melhor Aceleradora de Startups da América Latina e ecossistema completo de inovação para o empreendedor de alto impacto. Também é professor e palestrante.

 

Eric Hayashi
Eric Hayashi
Editor DoMKT × CM Sympla × Curador Startup Digest × Owner EHayashi | #startup #photo #digital #biz #video #tech #creative [+]