Como fazer uma transição no mercado de trabalho – Parte 2: Apresentação, Currículo, Entrevista e Networking

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Em um exercício de mudança de carreira, tudo começa com uma reflexão. Você precisa saber para onde quer ir, que competências tem na mão e como consegue completar potenciais gaps e requisitos necessários para sua jornada de transição.

Foi o que eu abordei na Parte 1 desse artigo.

Agora, a partir do momento que você sabe o que você tem para competir e conquistou as competências necessárias para tal, chegou a hora das últimas calibragens e de dar o primeiro passo. Existem pontos muito importantes que quero abordar.

A sua apresentação é um deles: o que você vai apresentar para o seu recrutador? O seu currículo está adaptado ao que o mercado está acostumado a ver? Qual será a sua abordagem? O que você precisa saber sobre a empresa que quer trabalhar?

Além disso, falarei sobre algumas boas práticas para se ter durante a entrevista de emprego, e como você pode aproveitar a sua rede para conquistar mais oportunidades.

Vamos lá?

Apresentação: o exemplo da Lasanha

Imagine a lasanha da casa da sua avó. Fumegante, saindo do forno com o queijo ainda borbulhando e o molho bem distribuído sob a massa caseira, aquele cheiro de comida bem temperada invadindo o ar e todos à mesa já salivando para comer a comida feita com amor e carinho em meio a uma conversa boa na tarde de domingo. (deu fome!)

Agora imagine aquela lasanha congelada que estava esquecida no fundo do seu freezer. Sozinho em um domingo à noite, sem paciência nem para pedir uma pizza, você a coloca no microondas e come ainda na embalagem descartável, com o recheio meio quente meio gelado porque não descongelou direito, mas é o que tem.

Os dois têm basicamente os mesmos ingredientes: massa, molho de tomate, carne moída, presunto, queijo e tempero, certo?

Então por que o sabor, a expectativa e a experiência são totalmente diferentes?

A apresentação. (e, claro, o tempero secreto da sua avó)

É um exemplo metafórico, mas a correlação que quero fazer é que além de ter as competências necessárias para entrar no mercado que você quer, você também precisa demonstrar isso para os seus potenciais recrutadores – em todas as interações.

  • Exemplo: Designers com currículos bonitos e bem-diagramados e portfolios mais completos têm mais atenção que os que enviaram CV’s padrão.
  • Exemplo 2: Desenvolvedores com um site pessoal com boa usabilidade e experiência de usuário ganham pontos na hora da escolha final.
  • Exemplo 3: Já soube de empresas descartando profissionais de Comunicação por erros gramaticais em seus currículos, e-mails ou textos de portfolio.

Existem muitas formas de demonstrar que você é a pessoa certa para aquela oportunidade – mesmo que seja originário de outra carreira.

A primeira é um resumo da sua carreira e competências (currículo, portfolio, pasta, carta de recomendação, referências) adequado ao mercado onde quer trabalhar.

Currículo & Outros

Adapte a sua apresentação ao formato que o recrutador mais quer ver.

Algumas carreiras dão mais valor ao “tempo de casa” (quanto tempo você ficou em cada emprego). Para elas, vale adaptar o currículo e destacar as experiências mais duradouras – aqueles freelas de três meses podem ficar escondidos em algum lugar.

Outras carreiras têm maior propensão em valorizar as empresas anteriores. Nesse caso, vale destacar aquela vez que você trabalhou naquela companhia famosa.

Em tempo: quando você começa a estagiar, toda experiência é válida, mas à medida que você vai ganhando mais experiência, seu currículo vai ficando maior.

Mas quase ninguém vai ler aquele monstro de 5 páginas que conta até que papel você interpretou na peça Macbeth na 3ª Série. Vá editando e deixe só as experiências mais relevantes (para o tipo de vaga que você busca, lembra?).

Se você precisa de um portfolio para entrar em uma agência, crie um portfolio. Se você precisa de uma carta formal de recomendação para entrar em uma multinacional, peça essa carta de referência.

Descubra o que querem ver e adapte-se.

Pesquisa

Faça sua lição de casa. Pesquisar vai te ajudar demais em tudo.

Pesquise sobre a empresa que você está querendo trabalhar. Pesquise sobre aquela área dentro da empresa. Pesquise sobre os funcionários, suas competências e até mesmo o que acham sobre a empresa.

Pesquise, se possível, sobre o seu recrutador (alô, LinkedIn!).

Com a quantidade gigantesca de informação disponível na internet, o mínimo que você pode fazer é saber mais sobre onde quer trabalhar. Isso dá muito mais confiança para quem está do outro lado da mesa – e muito mais credibilidade para você.

E-mail de apresentação

Se você tem a oportunidade de mandar um e-mail para o seu recrutador, é melhor fazer o melhor e-mail que você pode. A sua missão é deixá-lo curioso o suficiente para abrir o seu material e te chamar para uma conversa.

Se você manda só aquele “segue currículo anexo”, você provavelmente é mais uma lasanha congelada em meio a outros tantos (centenas, milhares?).

Leia o job description e explique por que você se encaixa perfeitamente naquela vaga. Por que que você pode ser o melhor de toda a pilha de e-mails que ele está recebendo. O quanto você quer trabalhar naquele lugar. Faz muita diferença.

IMPORTANTE: apesar de tentar convencer a pessoa do outro lado da tela, você não pode parecer um vendedor de carro usado de filme pastelão. A sua intenção é gerar empatia e curiosidade, e não repulsa.

Entrevista

A entrevista é o momento perfeito para você se consagrar – ou se destruir.

Existem profissionais de RH e Gestão de Pessoas bem mais gabaritados para abordar as minúcias e métodos de se fazer uma boa entrevista, mas quero ressaltar pontos que na minha visão são bem importantes.

No final das contas, a entrevista é só mais uma etapa para o recrutador te conhecer.

Você quer despertar algumas coisas na entrevista: empatia e confiança. Mas como?

A primeira é a honestidade. Seja aberto sobre seus pontos fortes e fracos e o quanto a descrição da vaga combina com o seu perfil (ou não). Aquele velho clichê de responder “sou perfeccionista” quando perguntam o seu maior defeito ou coisa similar certamente vai ser um tiro pela culatra. Mostre onde você é bom, mas também onde pode melhorar.

E você sabe disso porque fez um assessment das suas competências, lembra?

A segunda coisa é não ser um robozinho. Não é porque você leu algumas técnicas infalíveis de entrevista que você vai virar um papagaio de buzzwords. O papo flui muito melhor quando você simplesmente conversa sobre o trabalho, sobre as suas experiências, sobre o que você costuma fazer, o que te levou até ali. Seja gente boa.

A terceira é perguntar. No final do dia, mesmo com a sua pesquisa, você é a parte com menos informação. Portanto, pergunte.

O que é a empresa, como é trabalhar ali, o que vai fazer, qual a perspectiva de evoluir, qual o salário, como é o clima, se tem benefícios, quem será o time que você pode trabalhar junto, como é o trânsito até lá, o que tem para comer por perto… Pergunte!

E não apenas sobre a empresa, mas também sobre o recrutador (possivelmente alguém de RH ou o gestor da área – mais legal se for a segunda opção). Quem ele é, onde ele estudou, quem ele conhece que te conhece (lembra do LinkedIn?), etc.

Isso gera empatia. A sua conexão deixa de ser “Você é um candidato” para “Você é um cara legal com competências X, perfil Y e experiências Z que quer trabalhar aqui”.

Networking

Ter um bom networking é fundamental para qualquer coisa. Quando você está em um momento de transição de carreira, então, nem se fala.

Uma boa rede de contatos pode prover acesso a uma série de oportunidades que você pode gostar, conhecimentos específicos sobre certas áreas ou empresas, te apresentar novos contatos benéficos para a sua situação e, mais importante:

Sua rede pode te recomendar. E isso vale MUITO.

Por que? Quando alguém te recomenda para alguma vaga ou oportunidade, você “herda” parte do capital social (pessoal, e não societário!) daquela pessoa que te recomendou para a empresa ou profissional que recebeu a recomendação.

Você ganha pontos por ter sido recomendado. E quem te dá esses pontos é justamente a pessoa que te recomendou – que “aposta” em você.

E você pode usar isso tanto para abrir portas como para trabalhar como influência em oportunidades já em andamento. Portanto, pague cafés. Pague almoços. Converse!

Mas isso precisa ser feito com muito cuidado: a pessoa que te recomendou apostou em você, logo você precisa fazer jus à expectativa. Se você for aquém do esperado, você não apenas está descartado como “queima” também o contato que te indicou.

Outras coisas importantes: gerar valor e ter bom senso.

Você também não pode sair queimando toda sua rede de contatos com “oi sumido” e pedindo emprego (nem dinheiro).

Claro que você pode pedir indicação de vaga ou contato a alguém, mas a regra geral é ter bom senso: se não, você mais vai parecer um SPAM ambulante do que qualquer coisa e o tiro pode sair pela culatra. Aliás, isso é uma regra de networking:

Você precisa sempre gerar valor para quem está na sua rede. Constantemente!

Se você é lembrado por gerar valor pelos seus contatos, o seu próprio “capital social” com eles aumenta – o que os torna mais propensos a te ajudarem quando você precisar. Isso não quer dizer que você só vai ajudar alguém esperando algo em troca.

Ajude os seus amigos e contatos profissionais de graça e de bom grado – isso vai certamente reverberar positivamente para você em algum momento. Falarei mais sobre networking em outro artigo.

E agora?

Agora, você já tem uma ideia de como se preparar para mudar de carreira e como começar esse trajeto. Resumi o que escrevi em algumas perguntas, que você também pode aproveitar como checklist para marcar o que já conseguiu descobrir.

  • Quais são as informações mais relevantes que eu posso oferecer? Como?
  • Como eu posso adaptar meu currículo?
  • Qual a melhor forma de comunicar meu interesse em uma oportunidade?
  • O que eu sei sobre o lugar que quero trabalhar? E sobre as pessoas?
  • Qual será minha abordagem na entrevista?
  • Como eu posso aproveitar a minha rede?

Conseguiu alguns insights sobre as perguntas acima?

Nos próximos artigos, vou abordar as rotas possíveis para o seu destino final; como efetivamente começar na prática e também o que esperar nesse momento de transição.

O que você achou desse artigo? Comente! Mais uma vez, o espaço para comentários está aberto para discussão, e eu realmente quero saber a sua opinião e se tem algum ponto que gostaria de adicionar.

Um abraço! 🙂

Felipe Figueiredo

Felipe Collins Figueiredo é head de marketing da ACE, Melhor Aceleradora de Startups da América Latina e ecossistema completo de inovação para o empreendedor de alto impacto. Também é professor e palestrante.

Eric Hayashi
Eric Hayashi
'CEO' #EHayashi, Cofounder @DesafiandoMKT, Curador #StartupDigest, Planner @GrupoTV1 // #startup #photo #digital #content #biz #video #tech #creative [+]